Via Oral


Um blog sobre textos, aforismos, arte, literatura, arquitetura, humanismo e outras coisas para as quais ninguém dá a mínima. Escrito em encenado nas poucas horas vagas que a atividade de ADA (Arquiteto Doméstico Administrador) permite.
Um espaço perfeitamente adequado à muita conversa fiada, mentiras acreditáveis, ranhetices, rupturas, causos, crônicas e, sobretudo, área disponível aos amigos, uma turma cheia de gaiatices mas que eu adoro.
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domingo, dezembro 19, 2004

O cavalo do teatro

Fui assistir à dança da Flora, no Theatro Municipal, aqui em Niterói. Aos sete anos, postura e alma de bailarina, ela se delicia com a arte e a gente dá a maior força. E fomos lá, num espetáculo de quase duas horas ininterruptas.

Antes da abertura, um aviso: terminantemente proibido o uso de câmeras, flashes, filmadoras, cigarros, celulares, berros, uivos, ou seja lá o que for que atrapalhe o espetáculo, confunda os dançarinos, assuste as crianças.

Na minha frente, um cavalo, de um metro e noventa, é a barreira à minha visão. Puxa de uma câmera de vídeo parecida com uma AR-15 e manda ver, na "produção" da dança da filha. E quem atrás dele estivesse, que se danasse pra ver o palco. Mais ainda: não satisfeito, puxou de uma máquina fotográfica e disparou contra o palco, atingindo em cheio os dançarinos. Coitada da filha.

Desculpem os que as têm, as filmadoras, mas acho que fotografia é arte; filmadora doméstica é apenas tecnologia a serviço de quem, na maioria das vezes, não sabe bem o que fazer com aquilo e se torna inconveniente, como o tal cavalo na platéia. "Registro para a posteridade" - dizem alguns, que não percebem que fotografias têm um movimento maior e falam muito mais à alma, apenas porque atiçam a mente de quem as vê, que tenta supor o momento, e vivendo-o à sua maneira, sonha e transporta-se no próprio sonho. Mas, voltemos à peça. Horrível, como toda a apresentação de uma escola de balé. Mas minha filha estava lá, e eu também, prestigiando. O que não muda os fatos. A apresentação de uma escola de balé tem como finalidade o exercício de palco dos alunos. TODOS eles são convocados e desejam apresentar-se, exibir-se, narcisisticamente e naturalmente. É o "balé do crioulo doido", onde turmas misturadas não conseguem estabelecer um padrão técnico razoável, e cada um dança de um jeito todo próprio aquilo que deveria ser dançado de uma única forma. Mas, é absolutamente necessário que seja assim. É o fantástico mundo do aprendizado em que os sonhos dali, um dia, serão a realidade de muitos palcos pelo Brasil afora, às vezes até do mundo.

Na verdade, o espetáculo não era o balé, mas sim as expressões de felicidade de crianças, jovens e professores, num mundo difícil e mágico como é o da dança. Não importa se estão num espetáculo da companhia francesa Montalvo-Hervieu, ou na troupe canadense Cirque du Soleil - que, por sinal, tem duas dezenas de brasileiros no elenco de cerca de 600 artistas. O que vale mesmo é que eles estão num palco de teatro, seu habitat predileto. E nós, ali na frente, assistindo, temos a obrigação, o dever e o privilégio de aplaudi-los, a todos, pois a arte se faz apenas pelo reconhecimento daqueles que a produzem. Deveríamos ter também o direito de quebrar celulares, câmeras e vídeos de alguns quadrúpedes que teimam em entrar num Theatro, assim mesmo, com "th" do século dezenove. Mas, enfim, estamos no espírito natalino. Deve ter sido por isso que fiquei calado, não reclamei do tal. Mas em compensação, na hora em que ele estava filmando eu fechei os olhos. Não vi a dança da filha dele. Bem feito.


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sexta-feira, dezembro 10, 2004

O sapo-arquiteto

Estou assim, sem tempo, por conta de um pouco mais de trabalho. Arquiteto quando tem trabalho, vocês já sabem como é, não vive outra coisa. E blog, é outra coisa, que merece ser tratado com todo o carinho do mundo, porque recebe a atenção das pessoas queridas, a quem aprendemos a amar sem jamais tê-las visto, tendo a recíproca como a mais pura verdade. Ao contrário do que muita gente diz e pensa, o blog é uma relação concretíssima entre pessoas, entre o pensamento das pessoas, que é o que viaja no tempo, no espaço e fica pra sempre, diferentemente das pessoas. Mas, voltemos ao trabalho.


A profissão de arquiteto, admirada por tantos, romântica, idealizada, não tem nem de longe o glamour e a moleza que muita gente imagina. Lula Cardoso, um arquiteto cheio de bossa e a quem conheci há muitos anos, foi premiado em Paris por uma intervenção urbana de altíssima qualidade. De volta ao Brasil, acabou vendendo sua casa em São Conrado, por que não tinha dinheiro sequer para arcar com os custos de manutenção. Triste país esse, que ainda vive e valoriza uma arquitetura em "estilo colonial", sem sequer se dar conta do que isso significa.
Não soube mais do Lula. Espero que tenha voltado para a França.

Aí, uma amiga me conta uma piada de arquiteto, que diz mais ou menos assim:

Um pobre colega, após desagradar uma certa cliente (o que não é nada difícil, tão exigentes e intolerantes podem ser alguns clientes...), foi transformado em sapo. Vida úmida, coachando aqui e ali, até que se deparou com uma bela moça.

- Senhorita, falou ele, "sou um arquiteto encantado que foi transformado em sapo por uma cliente perversa. Mas, basta que me dês um beijo e voltarei a ser como antes. Em troca, serei teu para sempre, caso-me contigo e te serei eternamente fiel".

A moça gostou bem da idéia, pegou o sapo-arquiteto, colocou-o na bolsa, e foi aos seus afazeres. O sapo, ansioso, ficou apenas a observar, aguardando o momento do beijo salvador. Mas a moça nada, nem aí pro beijo, apesar do tempo passado desde o encontro. Ao que o bicho se manifestou:

- Querida, e o meu beijo, aquele que me libertará e me colocará para sempre ao teu lado, por quê não o tenho logo?
E disse ela:

- É que, pensando melhor, acho que ganharei muito mais dinheiro tendo um sapo que fala, que um marido arquiteto...



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domingo, novembro 28, 2004

Minha amiga e escritora, Marcela, do blog Maré, grávida de oito meses e vinte e oito dias, enviou-me, meses atrás, um texto magnífico de Leonel Moura, intitulado "Homens-Lixo". Marcela ficou conhecida na blogosfera por sua postura de diferenciada no universo dos deficientes, ao qual pertence desde certa idade. Está mais do que na hora, no entanto, de ser ela reconhecida como a escritora talentosa que é, cuja consciência social explica e justifica a sugestão que me foi encaminhada.
Marcela Vaz agora saberá que esse texto foi base de um trabalho em nossa pequena comunidade espírita, cuja instalação recebeu elogios de todos. Aqueles que participaram do evento agradecem-na, comovidos, pela oportunidade preciosa que o simples repasse de uma mensagem eletrônica lhes proporcionou. Percebemos que um carinho, sem nenhuma pretensão maior, pode conduzir-nos muito, muito longe, para confins inimagináveis rumo ao nosso desenvolvimento humano.

Abaixo, o trecho que me foi enviado. Leiam-no com atenção. São palavras graves, absolutamente prenhes de verdades incômodas e para as quais não poderíamos ter conduzido a melhor uso. O texto completo, disponibilizado na Net, pode ser acessado pelo endereço anotado no fim da mensagem. Façam bom proveito.

Os homens-lixo - Leonel Moura.

Na visão das antigas colônias de leprosos, encontramos uma insuportável imagem da miséria humana, figuras envolvidas em trapos empapados de sangue, proscritos do convívio em comum e atirados para um lado qualquer, longe de tudo e desde logo da vida digna.Ocupando uma parcela do território, reconhecido, mas escondido da vista e da moralidade pública, o leproso realiza idealmente o programa do imaginário abjeto. Pois nele se conjuga a dupla condenação: a da natureza na decomposição do corpo vivo, e a da humanidade, na recusa da pertença social.Mas hoje a colônia dos leprosos ocupa praticamente o globo inteiro, nessa nova espécie de homem que se encontra mais perto do lixo do que de uma qualquer condição humana.Verdadeiros homens-lixo, que vivem dentro de esgotos e se alimentam de detritos nos depósitos municipais - numa descida às mais negras profundezas do asco e da inumanidade, ilustram o quotidiano de todas as cidades do planeta e fazem de cada novo êxito científico, econômico, cultural ou pessoal, um detalhe patético num cenário de uma crise irremediável.Tudo o que era limite, da decência, da dignidade, da doença, da loucura, do abandono, já foi há muito ultrapassado nas grandes urbes do nosso mundo e nesses campos de refugiados que invadem as orlas e os desertos.E, nesta celebrada incapacidade de solucionar a desumanidade vigente, todos nós, cada um à sua maneira, vamo-nos transformando em homens-lixo, na perda da última camada do ser que nos faz humanos.Para a sociedade contemporânea, a exclusão é vista como catástrofe natural. Epidemia que atinge uns e aparentemente poupa outros, numa seleção devedora das crenças, mais do que da condição social. Os excluídos constituem uma intromissão visual nascida diretamente da contingência.
Como uma chuva que cai quando lhe apetece, servem à precariedade da existência. E aos olhos das vidas correntes, apresentam-se como símbolos, ruínas, deficiências, a caminho de um estatuto não-humano. São entidades supérfluas, cuja única utilidade é de natureza exemplar, animando o destino dos homens-correntes e a tênue alegria das vidas remediadas.Sem pertença, política e social, não há humanidade. A exclusão resulta antes de tudo numa expulsão da própria condição humana, na banição irremediável, à rota da leprosaria.Vita sanctorum socialis est, dizia Santo Agostinho. Fora da pertença nada de humano existe. Não há humanidade, sem comunidade.A experiência da exclusão não é transitória, nem resulta de uma suspensão momentânea ou sobressalto acidental. A exclusão é a condição definitiva de um ser atirado para um lugar exterior à vida comum. Só se sai dela com um renascimento.O excluído é na verdade um pária, um estrangeiro sem país de origem, um leproso condenado ao ostracismo. Sem retorno.Porque o eu se define na relação com os outros num espaço comum, a exclusão torna alguém estrangeiro de si mesmo. O homem-lixo já não se reconhece como humano e entende-se como obstáculo do progresso de todos. Mendiga a dupla necessidade. A do estômago e a da culpa, pedindo o pão e o perdão.Daí a surpreendente falta de raiva dos mendigos. Não lutam pela vida, mas pela sobrevivência. Não reivindicam a pertença, mas tão só a permanência.
(Excertos de Os homens-lixo, de Leonel Moura, Edições Fenda - Lisboa; texto integral online http://www.lxxl.pt/babel/biblioteca/lixo1.html na edição de outubro da Babel - revista eletrônica.)

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quarta-feira, novembro 17, 2004

A outra questão

Antes de tudo, me desculpem. Desculpem pela desatualização do espaço, mas é que, para um arquiteto vivente no ócio do lar, quando pinta algum trabalho relevante, assim como a reforma de um banheiro na casa do motorista da vizinha, ele vai voando e esquece de tudo. Quase até dos amigos amados. Lei da sobrevivência, lei do cão, muito em voga nesse país.

Queria bem falar de uma coisa interessante que descobri, nas longas viagens que andei fazendo pra dentro de mim, quando estive em vias de bater às minhas costas a porta principal da casa arrastando malas em direção a lugar nenhum, que é pra onde se vai quando almas conhecidas se despedem, perdidas de si. Como muitos sabem, andei meio sem rumo com a idéia besta da separação, sugestão quase ordinária de Denise e que, fosse eu menos desobediente, a teria acolhido de chofre.

Noutro dia um amigo lamentou sua vida, numa leve menção à distância entre ele e sua companheira, aumentada pelas noites à frente da telinha, mal que aflige 9 entre 10 estros-homens da blogosfera.
Creio ser este um mal comum aos casais cansados, um première symptôme de que as coisas andam de mal a mais mal ainda, dans le mariage.

Somos sempre observados, nós os homens. As mulheres nos observam numa relação absolutamente inversa à atenção que dispensamos a elas. Isso, porquê nós não criamos nenhuma expectativa maior com relação à nossa companheira. Esperamos apenas que elas sejam boas esposas, boas donas-de-casa, ótimas mães (muitos de nós as temos como a continuação da relação materna original...). Quanto à nossa vida, as expectativas mais comuns são as do crescimento profissional e o conseqüente acúmulo de riquezas, a criação do filho homem nos padrões clássicos da masculinidade, o futebol, as cervejadas das sextas-feiras, o futebol, as mulheres do escritório, das ruas, dos vizinhos, dos amigos, o futebol, o carro novo, o computador, a televisão, o churrasco com os amigos (onde ela prepara tudo e ele acende o fogo, fica meia hora e volta à cervejas e aos amigos) e, como sempre, o futebol. A companheira, bem, essa recebe a mesma atenção que o último aspirador-de-pó comprado nas Casas Bahia e que veio com defeito.

Mas, elas nos observam enquanto somos tudo isso. Mulheres têm outras expectativas com relação aos seus homens. Esperam muito mais deles que o de simples provedores das necessidades básicas da família. Deixaram há muito de ser esposas profissionais, quando a sociedade assim permitiu. Transformaram-se em companheiras, com todas as exigências e prerrogativas do cargo e por isso nos prestam tanta atenção. Esperam que sejamos fiéis, amantes dedicados, observadores de seus cabelos, unhas, langeries, gestos e bocas; no entanto, nos desejam cegos à inexorável ação do tempo sobre seu semblante - a vaidade feminina está acima de qualquer julgamento dos mortais. Desejam beijos de boca e todos os outros; solicitam ser amadas de várias formas, mas sempre com delicadeza; clamam por respeito e pelo reconhecimento de suas outras qualidades, sejam estas quais forem: desde uma roupa bem passada, aos cuidados com os filhos ou a conduta na vice-presidência de uma grande empresa. Não importa em que patamar esteja, ela será sempre uma mulher a desejar a atenção do seu homem, traduzida em gestos simples, que apenas representem que ela é observada e amada.

Mas, como isso quase nunca ocorre, a mulher nos vigia e vê sempre o que não deseja na sua relação: o contrário, o lado oposto dos seus sonhos. E se decepciona e sofre muito. E aí, começa seu processo de aceitação da perda do sonho feminino, qual seja, o de ser feliz com o príncipe eleito, que, afinal, não era tão encantado assim. Nesse processo, ela acaba por matar as últimas réstias de esperança, definindo sua desistência da relação. Daí pra frente, ela apenas elabora o luto com antecedência; e na hora certa, comunica ao ex-consorte que a coisa toda acabou. Ele se desespera, xinga, grita, acusa-a de fria e desumana e demonstra claramente que não entendeu nada. Esse último ato de cegueira e intolerância equivale à pá de cal para que os restos da relação sejam devidamente desinfetados e não padeçam do mau-cheiro das agressões mútuas. Definitivamente, ele está morto e não sabe.

Mas, como no câncer, a prevenção é tudo. Antes de se chegar ao diagnóstico da irreversibilidade, um longo caminho pode e deve ser trilhado. É só um querer olhar pro outro com um pouco mais de atenção, que as imagens começam a aparecer. Mágoas, deslizes, decepções, intolerâncias, reclamos, angústias, medos, sofrimentos silenciosos, todos vão desaparecendo, vagarosamente, após cada conversa no jantar, cada diálogo na cama, cada desculpa aceita, após cada sorriso arrancado. Poucos homens me lêem, o que nesta hora é bastante lamentável. Hoje, eu acredito que toda relação é renovável. Não é o tempo que afasta as pessoas, mas sim o que se faz durante o tempo em que se está com as pessoas. Rotina boa não é rotina: é vida boa. Para recuperar a felicidade nas relações, não há milagre nem sonho. Carece apenas do desejo de viver, com a companheira, a vida como já se desejou, um dia.


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quarta-feira, novembro 03, 2004

Perdas ou Ganhos?

Ah, como eu gostaria de saber mais do mundo e da vida, só pra ter em mãos o poder de ajudar a diminuir as mazelas que tanto afligem as pessoas, principalmente os amigos, esses seres tão amados. Mas, não me é possível tal proeza; é pretensão exageradíssima, principalmente para quem quase perdeu o rumo, por conta do abandono imposto à companheira de quase 20 anos. Não, definitivamente eu não seria o mais indicado para salvar o mundo, no todo ou em parte. Mas sou muito do metido à besta, isso sim. E aí, diante de algumas questões absolutamente tentadoras, nascidas de brilhantes e adoradas cabeças que por aqui costumam dar as caras, não poderia eu, pretensioso como sou, ficar de lado, encolhido e alheio, que nem político re-eleito.

Duas questões me eriçaram os pelos nos dias recém passados. A primeira, um recadinho da genial Mariza sobre o post anterior, e que diz assim:

"(...) eu queria poder entender algumas coisas, e uma delas é o crescimento acompanhado de perdas; perde-se a ingenuidade, perde-se a capacidade de amar incondicionalmente, entre outras coisas primordiais."

Bom, eu não sei se consigo explicar o que essa moça brilhante almeja. Contudo, começaria por dizer que a vida não admite perdas, e sim, apenas ganhos. Isso pode soar estranho, muito estranho mesmo. Porém, ao considerarmos um outro referencial (a cada dia mais aceito) qual seja, o de que a existência é contínua e interminável, poderemos então transformar tudo aquilo que temos como perdas, em um outro patrimônio de vida, o qual poderemos rotular de ganhos ou seja, créditos, pontos acumulados, milhagens para as próximas travessias. Ao contrário do que possa parecer, isso não é falácia. A pluralidade de existências, tão defendida por Allan Kardec em suas obras, já é considerada por muitos como uma possibilidade científica a ser atentamente observada, pesquisada, e até aceita, em certos meios acadêmicos. Como não sou religioso, não falo de religião, apenas de ciência. Supondo a possibilidade científica de voltar a esta vidinha, com minha milhagem guardadinha na mala, o que vier, nessa existência, será lucro. Eis o conceito básico. Na verdade, a expressão "crescimento acompanhado de perdas" talvez seja contraditória em si mesma, pois nada cresce sem algum ganho. Nós, que nos acostumamos desde cedo ao acúmulo de riquezas como forma de quantificação de "ganhos" (sempre associado a alegrias nos lucros e a tristezas nos prejuízos), quando passamos por experiências que nos retiram algo, que não nos deixam "lucro", ou que nos fazem tristes, imediatamente fazemos a correlação biunívoca entre as duas coisas: tristeza é igual à perda e vice-versa. Então podemos concluir, por este raciocínio, que nada do que nos deixa tristes representa, obrigatoriamente, uma perda e si.
As outras questões, talvez até mais interessantes, referem-se à perda da ingenuidade e a amar incondicionalmente.
Muito bem: perda de ingenuidade é, na verdade, o ganho da experiência ao longo do caminho. Mais uma vez eu não consideraria como perda o distanciamento da infância (lugar onde costumam morar a inocência e a ingenuidade), que cede lugar à juventude, com todas as cargas "elétricas" e eletrizantes que essa fase nos traz. Acho que não perdemos nada. Apenas trocamos a ausência de preocupações de responsabilidades, por um outro momento, quando passamos a pagar o caro preço por nossas ações voluntariosas e arrojadas e por nossa afoiteza, ou pela coragem desmedida, que por muitas vezes é inteiramente desmiolada... E é justamente aí que está o ganho, no preparo do nosso íntimo para o receber daquilo que a vida pode nos proporcionar de melhor.

Já o ato de amar incondicionalmente, esta sim, é a melhor forma de amar, é o amor em sua melhor forma. Não depende de ninguém gostar da gente, de tratar-nos mal, bem, ou melhor; é o amor do cão pelo dono, da mãe pelo filho, da tiete pelo ídolo. É o amor grátis, que está sempre na melhor promoção. É o coração absolutamente livre de qualquer impedimento e que pode bater por quem quiser, o quanto desejar e pelo tempo que durar. É esse o amor que salva as relações, detém os suicidas, recupera os desesperançados. É o amor salva-vidas. E o que é melhor: é apenas uma opção nossa, praticá-lo. Mas a Mariza sabe disso; ela só estava brincando.
Ah, mas como eu disse antes, duas foram as questões que me eriçaram os pelos. A outra, fica pra próxima.

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sexta-feira, outubro 22, 2004

Como havia prometido ao meu amigo Patolinus, um conto de realismo fantástico. Na verdade, uma crítica aos pais que somos, por nos distanciarmos de nossa infância, da infância dos nossos filhos e, por isso mesmo, nos distanciarmos dos próprios filhos. Na nossa prepotência de "sabermos mais porque somos adultos", provocamos tristezas, frustrações, matamos fantasias. Estejamos, portanto, sempre alertas.


O presente


- Eu quero esse, pai!
O menino foi logo abraçando o boneco de pano, encolhido na prateleira da loja.
- Esse é horroroso. Põe isso lá, que está todo sujo e empoeirado. Vai atacar sua alergia - bradou o pai, olhando um cachorrão de pelúcia, que mais adestrado que o filho, aguardava na vitrine.
- Mas eu quero ele, pai... ele ta vivo!
- Não senhor, mocinho. Se quiser, leva esse aqui ou não leva nada; porque eu não vou ter paciência com manha de criança, não. Tá vivo... Que maluquice... - resmunga o pai.

O pirralho, triste, se perguntava sem entender, por que não poderia levar o bichinho: era menor, devia ser bem mais barato e era mais bonito. E, melhor que tudo, estava vivo! E se a irmã tinha aquele gato chorão, ele também poderia ter um bicho de verdade. Será que ele come? Se não comer, não suja a casa - pensou.
Chorou de tristeza e de verdade mesmo. E nem era pra convencer o pai. O bicho na prateleira, sujo, brinquedo mendigo, mantinha um sorriso tolo, diagonal, omisso. Tinha cara de um animal engraçado, meio desengonçado que o menino já vira em algum programa de tv. Não sabia o nome daquele animalzinho, mas sabia que o queria. Porque sabia que o animal também queria estar com ele, conversar e brincar com ele, isso sim, com certeza.
O pai, pagando a compra e a vendedora, cúmplice da criança, enfia na sacola o boneco de pano. Afinal, ninguém iria comprá-lo mesmo - conclui.

Caminho de volta, filho calado, de tristeza e raiva. Queria mesmo aquela coisita. Gente grande não entende nada, não sabe mesmo do que criança gosta. Como é que se pode gostar desse bichão feioso? E ele não tá vivo. Não tá morto também, porque nunca viveu e nem nunca vai viver - pensava.

A casa chegando, portão, escada, a sala, presentes e papéis coloridos no chão.
De susto e alegria, o grito do menino:
- Olha, pai! O bichinho veio também! Meu bichinho veio...! E num impulso, abraça o boneco, aperta-o contra o peito, com todo o amor do mundo.
O pai olha a cena, vocifera e num impulso maior, arranca o bicho das mãos do menino:
- Moleque safado, roubou essa porcaria da loja, não foi???!! Desde quando eu te ensinei a pegar alguma coisa sem permissão???

- Nããããoo, papai... Eu juro que não peguei nada...! Eu pensei que você que pôs ele lá, de surpresa...

O pai, transtornado, diante de todos, grita, bate, atira o boneco na parede com toda a força de sua raiva. Sai reclamando, bufando, batendo a porta do quarto. Iria devolver o boneco na manhã seguinte.
***

Banho tomado, o pai, de volta à sala, com jeito de limpo. Mãe e filha, mudas, estupefatas, olhares marejados, num quase-pavor.

O menino, com lágrimas nos olhos, com o bicho molengo na mão, boneco inerte que perdeu o sorriso.

Um filete vermelho escorrendo da boca de pano.

Num soluço, toda a dor do mundo eclodindo de um pequeno peito, que ainda não compreende direito tanto sofrimento:
- Pai, você matou ele...

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sexta-feira, outubro 15, 2004

Morreu Sabino. Morreu sabendo. Sabia como poucos, que cada criança é como um novo amanhecer, é como um novo dia para a humanidade. Sabia que podemos aproveitar cada dia para brincar, agradecer, ou não ligar pra ele, vivê-lo mecanicamente até que a noite chegue; e no dia seguinte podemos nem lembrar se o dia anterior foi de sol ou de chuva. Crianças também são assim. Se as esquecemos, chega a noite e a colocamos pra dormir, sem que tenhamos a menor idéia se durante o dia elas sorriram ou choraram. E no dia seguinte, isso tudo já passou, foi mais uma oportunidade perdida. Foi-se o meu querido Fernando Sabino. Sabia quase tudo. Mas dessa história, ele não sabia que foi inspiração.

Uma coisa

Fernadinho chegou e foi logo pro quarto. Derramou a caixa de brinquedos no chão, procurou alguma coisa que não encontrou, foi nas gavetas, no armário e nada. Desceu, foi no móvel da sala e depois de alguma bagunça foi até a estante. Quando saiu, a arrumação era outra. O pai olhou por cima do jornal, por cima dos óculos, olhou pra mãe e, juntos, olharam em silêncio pro filho, que já tomara o rumo da garagem. Ao longe, ouvia-se o barulho de quem procura algo, com a paciência e desenvoltura de seus seis anos de idade. O barulho de vidro quebrado fez o pai largar o jornal e caminhar até onde, pouco antes, era um espaço arrumado.

- Quebrou...
- É, eu sei disso - disse o pai, sério, mas sem o rancor dos pais dos outros.
- Posso saber por quê o senhor entrou em casa como um pequeno furacão, e sem nem falar conosco já deixou trabalho para o resto da semana? - indagou.

O pequeno, olhando o pai quase que pelas pálpebras, de tão desconfiado, respondeu:

- É que estou procurando uma coisa...
- E que coisa é essa, tão importante?
- Ainda não sei.
- Como não sabe?! Então você bagunça tudo, sai quebrando a casa toda e não sabe nem o que está procurando? - espantou-se o paciente pai.
- É...
- Ah, é??? - o pai, meio sem argumento.
- Humrrum... - acenou Fernandinho.
- Muito bem mocinho: o senhor vai arrumar tudo, varrer esse vidro quebrado e tomar banho para almoçar. AGORA! - recompôs-se o pai, que deu de costas e voltou ao jornal.

- E aí? - perguntou a esposa, confiante em que o pai havia conseguido controlar aquela "fúria da natureza" que era o seu filho.
- Tudo resolvido - ele respondeu.
- Mas, afinal, o que é que ele está procurando tanto? "Ainda não sabemos", diz o pai com alguma ironia.
- Ora, como "não sabemos", ou melhor, "quem não sabemos"??? - espanta-se a mãe.
- Ele e eu, oras. Aliás, agora, você também! - responde o pai, num sorriso meio cínico e maroto. A mulher, disfarçando o "meio sem-jeito", inclinou a cabeça, como se isso a ajudasse a entender melhor aquela resposta estapafúrdia, raciocinando com os lábios. Não adiantou nada, e ela deixou pra lá, rotulando os dois, silenciosamente, de qualquer coisa parecida com "malucos".
O resto do dia passou e Fernandinho continuou procurando, agora com algum cuidado e um pouco menos estardalhaço, porque chamar a atenção dos pais havia se revelado como um grande risco. Já à noite, com todos jantando sob o som do jornal da televisão, e Fernandinho mais tranqüilo, o pai perguntou:
- Achou?- Ainda não - respondeu o guri.
- Mas vai achar, não se preocupe - incentivou o pai, com um sorriso leve, de quem está brincando. A mãe, sem saber se perguntava algo ou não, optou pelo silêncio, só pra não trair a enorme curiosidade de toda as mães; e também pra não se passar por tola, pois, com toda certeza era o que eles queriam que ela fizesse. No final, não diriam nada e ela ficaria ali, com cara de boba e os dois sorrindo disso, divertidos. Ficou quieta.
Estranhamente o jantar transcorreu sem nenhum tumulto. Fernandinho deixara quase a metade da comida no prato e parte da outra, não consumida, na mesa. Num salto, foi direto pro quarto do meio, espécie de escritório, depósito, biblioteca e uma muito pretensiosa sala de estudos, justo pra ele, Fernandinho. Abre aqui, mexe ali, derruba acolá, e nada aparecia que servisse ao menino. E enquanto o rebuliço corria solto no cômodo, os pais resolveram que iriam ajudar na busca do filho, com a mãe ainda desconfiada de que, diante dos dois, ainda iria passar por alguma situação ridícula.E em pouco tempo todos procuravam. Primeiro a mãe aparecera com uma velharia qualquer, inservível. Depois, o pai, exibindo uma taça de vice-campeão de qualquer coisa, ambas rejeitadas pelo garoto. Nada servia e ninguém sabia mesmo o que procurava. Até que Fernandinho esclareceu: a professora havia pedido que cada aluno trouxesse de casa alguma coisa diferente, que nenhum colega tivesse; algo exclusivo, pessoal, só pra mexer com a cabeça das crianças. Os pais do "furacãozinho" aliviaram. Agora sim, tudo fazia sentido e eles sabiam o que iriam procurar. E começaram a chafurdar os armários, no mesmo "estilo" de Fernandinho: não ficava pedra sobre pedra. Surgiu de tudo: das fotos do casamento até o primeiro sapatinho do filho; de cartas de amor a "lembranças" surrupiadas de um motel. Mas nada, nada servia. E foram procurando noite adentro.
Já não se agüentavam mais em pé, quando Fernandinho parou e ficou olhando para os pais, que insistiam em não achar nada. Olhou, observou e, depois de algum tempo, disse:

- Podem parar de procurar e vão dormir, porque eu já achei o que procurava...
- Achou??? Mas como?? Mostra... - disse a mãe.
- Amanhã eu falo - respondeu o pequeno. Vão dormir.

Acostumados com as maluquices do filho, os dois cambalearam rumo ao quarto, enquanto Fernandinho, acompanhando-os com o olhar, sorria o seu melhor sorriso. Aquele amor dos pais - sabia bem - só ele tinha.

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sexta-feira, outubro 08, 2004

Aproveitando-me da sabedoria alheia.

Meus amigos,

Como não posso, aqui, estabelecer um compromisso diário de escriba, passo rápido pelo outro lado da calçada, só pra ninguém me ver. Mas, como a saudade é grande, muitas vezes maior que o tamanho do meu tempo, não resisto à tentação de uma mensaginha adolescente, feita por gente grande, para as grandes gentes que me lêem.

Recebi este texto por e-mail e é possível que muita gente já o conheça, como também, que muitos sequer o suponham. Como ando muito ocupado e sem tempo de postar - mas nunca esquecido de todos os que gastam seu precioso tempo por aqui, permitam-me ofertá-los com palavras de um outro coração, mas de uma enorme e doce sabedoria:

PROCESSO SELETIVO VOLKSWAGEN:

A REDAÇÃO ABAIXO FOI DESENVOLVIDA POR UM CANDIDATO NUM PROCESSO DE SELEÇÃO. ELE FOI APROVADO E SEU TEXTO ESTÁ FAZENDO SUCESSO E ELE COM CERTEZA SERÁ SEMPRE LEMBRADO PELA SUA CRIATIVIDADE, SUA POESIA E ACIMA DE TUDO PELA SUA ALMA. VALE A PENA LER.


JÁ FIZ COSQUINHA NA MINHA IRMÃ SÓ PRA ELA PARAR DE CHORAR, JÁ ME QUEIMEI BRINCANDO COM VELA. EU JÁ FIZ BOLA DE CHICLETE E MELEQUEI TODO O ROSTO, JÁ CONVERSEI COM O ESPELHO, E ATÉ JÁ BRINQUEI DE SER BRUXO. JÁ QUIS SER ASTRONAUTA, VIOLONISTA, MÁGICO, CAÇADOR E TRAPEZISTA. JÁ ME ESCONDI ATRÁS DA CORTINA E ESQUECI OS PÉS PRA FORA. JÁ PASSEI TROTE POR TELEFONE. JÁ TOMEI BANHO DE CHUVA E ACABEI ME VICIANDO. JÁ ROUBEI BEIJO. JÁ CONFUNDI SENTIMENTOS. PEGUEI ATALHO ERRADO E CONTINUO ANDANDO PELO DESCONHECIDO. JÁ RASPEI O FUNDO DA PANELA DE ARROZ CARRETEIRO, JÁ ME CORTEI FAZENDO A BARBA APRESSADO, JÁ CHOREI OUVINDO MÚSICA NO ÔNIBUS. JÁ TENTEI ESQUECER ALGUMAS PESSOAS, MAS DESCOBRI QUE ESSAS SÃO AS MAIS DIFÍCEIS DE SE ESQUECER. JÁ SUBI ESCONDIDO NO TELHADO PRA TENTAR PEGAR ESTRELAS, JÁ SUBI EM ARVORE PRA ROUBAR FRUTA, JÁ CAÍ DA ESCADA DE BUNDA. JÁ FIZ JURAS ETERNAS, JÁ ESCREVI NO MURO DA ESCOLA, JÁ CHOREI SENTADO NO CHÃO DO BANHEIRO, JÁ FUGI DE CASA PRA SEMPRE, E VOLTEI NO OUTRO INSTANTE. JÁ CORRI PRA NÃO DEIXAR ALGUÉM CHORANDO, JÁ FIQUEI SOZINHO NO MEIO DE MIL PESSOAS SENTINDO FALTA DE UMA SÓ. JÁ VI PÔR-DO-SOL COR-DE-ROSA E ALARANJADO, JÁ ME JOGUEI NA PISCINA SEM VONTADE DE VOLTAR, JÁ BEBI UÍSQUE ATÉ SENTIR DORMENTES OS MEUS LÁBIOS, JÁ OLHEI A CIDADE DE CIMA E MESMO ASSIM NÃO ENCONTREI MEU LUGAR. JÁ SENTI MEDO DO ESCURO, JÁ TREMI DE NERVOSO, JÁ QUASE MORRI DE AMOR, MAS RENASCI NOVAMENTE PRA VER O SORRISO DE ALGUÉM ESPECIAL. JÁ ACORDEI NO MEIO DA NOITE E FIQUEI COM MEDO DE LEVANTAR. JÁ APOSTEI EM CORRER DESCALÇO NA RUA, JÁ GRITEI DE FELICIDADE, JÁ ROUBEI ROSAS NUM ENORME JARDIM. JÁ ME APAIXONEI E ACHEI QUE ERA PARA SEMPRE, MAS SEMPRE ERA UM ''PARA SEMPRE'' PELA METADE. JÁ DEITEI NA GRAMA DE MADRUGADA E VI A LUA VIRAR SOL, JÁ CHOREI POR VER AMIGOS PARTINDO, MAS DESCOBRI QUE LOGO CHEGAM NOVOS, E A VIDA É MESMO UM IR E VIR SEM RAZÃO. FORAM TANTAS COISAS FEITAS, MOMENTOS FOTOGRAFADOS PELAS LENTES DA EMOÇÃO, GUARDADOS NUM BAÚ, CHAMADO CORAÇÃO.

E AGORA UM FORMULÁRIO ME INTERROGA, ME ENCOSTA NA PAREDE E GRITA: ''- QUAL SUA EXPERIÊNCIA?''. ESSA PERGUNTA ECOA NO MEU CÉREBRO: ''EXPERIÊNCIA...EXPERIÊNCIA...'' SERÁ QUE SER ''PLANTADOR DE SORRISOS'' É UMA BOA EXPERIÊNCIA? NÃO!!! TALVEZ ELES NÃO
SAIBAM AINDA COLHER SONHOS!''
AGORA GOSTARIA DE INDAGAR UMA PEQUENA COISA PARA QUEM FORMULOU ESTA PERGUNTA:
- EXPERIÊNCIA? QUEM A TEM, SE A TODO MOMENTO TUDO SE RENOVA?



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terça-feira, setembro 21, 2004

Vivendo e (re)aprendendo

Depois de mais uma semana de curso, numa enorme maratona de teorias, fórmulas e gráficos de toda ordem, estou de volta, ainda que meio entrevado na datilografia, mas ao menos com raciocínio lubrificado. Bem a propósito, aliás, já que o último post, sobre a redescoberta da minha relação de casado, excitou alguns do melhores corações e mentes de pessoas queridas, muitas delas em permanente conflito com seus pares, e que ora experimentam momentos de desânimo, desesperanças e tristezas.

Infelizmente, as fórmulas matemáticas estudadas em meus cursos não são aplicáveis às desditas dos amigos queridos. E nem há outras, decerto.
Em suas considerações, alguns são céticos quanto às possibilidades de que relações antigas possam revigorar-se por força da vontade dos seus companheiros; outros invejam, com aquele tipo de inveja boa, que torce para que tudo se ajeite e que dure para sempre e mais um mês. E há ainda os que tentam saber "como é que faz pra gente ser feliz", como na música, na certeza - claro - de que não há resposta a tal questão.

Sempre afirmei, sem muita originalidade, que o casamento é o melhor meio de se separar as pessoas. Meio e motivo, corrijo. Meio, por ser regido pelo sentido da posse, da subserviência, da interdependência desigual. É também motivo, porque nenhum casamento resiste a um meio tão perverso de co-existência. Nas relações humanas, a igualdade é um mito. No casamento, as ações de re-equilíbrio dos direitos e deveres de cada um têm sido as maiores responsáveis pelo imenso número de separações. Natural, já que quase sempre homens e mulheres divergem sobre o que cada um deve responder na relação, principalmente quando a paixão se reverte em razão, e esta, como sabemos, tem a péssima mania de espantar sonhos e fantasias. Como já disse, não há fórmulas.

Mas há ações. A atenção com pequenos detalhes da vida diária, um carinho num cruzamento de corredor, um elogio, um olhar mais terno, presentinhos, lembranças, bilhetes (ah, os bilhetes...), tudo pode ter um poder quase milagroso na redescoberta do(a) companheiro(a). O que v. acha que poderia acontecer com uma relação terminal, se um dos dois resolvesse levar o café matinal na cama, num despertar ensolarado de domingo? Eu não tenho a menor idéia, mas, se alguém sorrir, terá valido a pena.

Mas, não só o homem (o preferido, por sufrágio universal, como saco de pancadas dos analistas de comportamento), mas também a mulher - e muitas vezes, principalmente ela - tem prerrogativas muitíssimo especiais na recondução de ambos ao melhor dos convívios. Por sua maior sensibilidade e preparo emocional, lhe é muito mais fácil um gesto conciliador num momento crítico, que esperar isso do companheiro, mais dado às soluções truculentas, como sempre lhe foi sugerido pela vida. Ao mesmo tempo em que lhe afaga o ego, ela ministra-lhe um bom "puxão de orelhas" pela atitude indelicada. Se ele for um sujeito esperto, vai perceber o engano. Talvez não se manifeste de imediato, mas certamente sentirá o golpe. Um dia, cai.

Resta saber, no entanto, qual dos dois merece e precisa mais de tudo isso: se eles, preguiçosos, desatentos e relaxados; ou elas, cansadas, desiludidas e prestes a desistir. Talvez um olhar mútuo e carinhoso possa responder.








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sexta-feira, setembro 10, 2004

O casamento do meu pior inimigo

Eu não estou disponível. Não mais, ou nunca estive, não sei. Tenho uma família, uma maravilhosa companheira-mãe-esposa-mulher, uma cama aquecida e o mais importante: tenho amor a isso tudo. Mas, não foi sempre assim. Nem acho que será sempre assim, mas vou cultivar o que tenho, para que tudo continue o máximo de tempo assim.
Falar aqui, num espaço público, sobre minha vida pessoal, ou sobre o que é minha relação em família, não é fácil. Mas é necessário, enormemente necessário.

Aqui, poucos sabem de mim. E os poucos que sabem, não precisam sentir-se honrados, porque eu não sou significativo o suficiente para honrar alguém com minhas historinhas comuns, meus draminhas de novela, minhas insuficiências emocionais. Os poucos que sabem de mim, que se sintam eles apenas meus amigos; pois para isso são feitos, forjados e moldados, os amigos.
Algumas vezes estive por separar-me de minha mulher, dos meus filhos, de mim. E nalgumas oportunidades conseguimos vencer essa tentação, com a prática política do "deixa pra lá", do "já passou", do "já esqueci". Até que, da última vez, concluímos que a relação havia chegado realmente ao fim; que as almas não mais ardiam sob um mesmo sentimento e que a relação não era como uma velinha colorida de aniversário, a inflamr-se espontânea e automaticamente, só pra gente cantar outra vez, ou quantos fossem os seus re-acendimentos. Assim, alinhavamos tudo, sem data, mas com a certeza de ter sido essa a melhor decisão.

Os primeiros dias passaram, e a inicial sensação de "alívio", de "livre, afinal", ou a velha reação do "que se fôda", foram se dissipando. Em seu lugar, começou o florescer de um imenso sentimento de frustração, de decepção pela incompetência com a qual lidamos com nossas dificuldades, uma grande impressão de que estávamos tomando o caminho mais fácil, uma vergonha por tal "covardia". Bateu a saudade de tempos idos, dos sorrisos largos, da cumplicidade esquecida; lembranças ainda vivas daquilo que cultivamos, contrastantes com a intenção mórbida de estocar, pela raiz, todos os pés de esperança e de sonhos, destruindo uma plantação inteira de pequenas realizações que semeamos em mais de doze anos de vida a dois. Não, eu não poderia permitir que isso acontecesse: não assim, perdendo tudo isso sem luta, entregando de volta à vida, tudo aquilo que dela arrancamos e que nos custou tanto... Não seria o justo.

Nos dias que se seguiram, propus que não deixássemos de nos beijar, na chegada ou na saída. Era um hábito antigo que demonstrava afeto verdadeiro, o qual não precisaríamos perder. Também antes de dormir, reativamos os "selinhos amigos". Passei a dormir no mesmo horário que ela, "assassinando" a televisão da sala, esquecendo os filmes do canal pago, meu antigo companheiro das noites. Na cama, antes de virarmos um para cada lado, um pouco de conversa. Trocava eu assim, o canal da tv pelo do diálogo, há tanto esquecido. Os carinhos, de timidamente permitidos no início, passaram a ser desejados. A tv morreu, a distância se encurtou a um só corpo e aos poucos, aquilo que julgávamos quase findo, brotou vivo, pulsante, intenso. As conversas mudaram de rumo, os olhares se viram mais ternos, a idéia de começarmos alguma coisa se acendeu. Diferente da retomada de um atalho perdido, agora parece surgir em nossa vida, alguma coisa nova e estranha, tão surpreendente quanto já foi, quando nos conhecemos. Parecemos outras pessoas, começando uma outra existência, em corpos diáfanos. Talvez estejamos mais parecidos com o que somos (e não sabemos).

Não sei onde esse caminho vai dar. Mas é um novo itinerário, a passagem a um novo nível do jogo, e que, em cada momento vivido, mais distante se vê do "game over". E é isso que desejo dividir com vocês, essa experiência, tão surpreendente e rica, que me dá a certeza de dizer que sempre vale a pena pensar nas possibilidades de corrigir o rumo, antes de jogarmo-nos, nós ao mar, e a nau aos rochedos.

Aos que me lêem, uma sugestão, se lhes couber: tirem a tv do quarto e coloquem um jarro de flores no lugar; ou um espelho, ou ainda - melhor - implantem uma foto de ambos, sorrindo. Depois, dispam o pijama da vida, ponham-na para andar de braços dados com a fantasia. Durmam juntos, conversem, reclamem, cobrem e não desistam. Aprendi isso tudo, observando atentamente o casamento do meu pior inimigo, alguém que, afinal, era eu mesmo.

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sábado, setembro 04, 2004

Como vocês sabem, estou reeditando alguns posts antigos, até que me venha o tempo necessário para os assuntos novos. Mais dia, menos dia, um dia estarei de volta.

Para sempre.

Hoje eu escutei o último CD da Elis Regina. Elis não morreu, ao contrário do que muita gente pensa. Ela é para sempre. E foi ali, ouvindo, lembrando dos maneirismos vocais da diva de minha juventude, que fiquei pensando: o que é para sempre, na vida das pessoas? Na vida da Elis, é a voz. A voz da Elis é tão para sempre, que a Maria Rita, sua filha, canta igualzinho à mãe. Tudo é tão passageiro, tudo é tão rápido, tão injustamente rápido... O que poderia ser para sempre, se o para sempre acaba logo ali adiante? Estamos tão distraídos com nossa "missão" de acumular riquezas, que nem atentamos à inevitável provisoriedade das existências humanas. Cada existência dura pouco, muito pouco. Nos apegamos tão fervorosa e intensamente às nossas conquistas que, para nós, por algum tempo, elas são eternas. Elas nos são "para sempre". E foi aí que eu, pensando sempre, comecei a contar quantas coisas eu tenho para sempre. A memória, essa eu tenho pra sempre. Pelo menos, até que as artérias se tornem quebradiças e o sangue se atrapalhe todo pelo caminho e, antes de chegar ao cérebro, dê uma passadinha pelos "países baixos". Não poderia cometer erro maior, esse meu sangue. Enquanto eu tiver minha memória para sempre, terei as lembranças para sempre. As imagens são as lembranças dos olhos. Como não ser para sempre a imagem do meu filho, olhando para as mãos e tentando decidir com qual delas seguraria a bola? Descobrimos, todos juntos, que ele seria canhoto. Como não ser para sempre, o aroma do perfume da criatura amada? Qualquer ser que passe à frente do nosso nariz, centenas de anos depois, portando uma fragrância que passou por um corpo amado, trará esse corpo ao presente, para ser mais uma vez amado, como sempre. Outra coisa que eu tenho para sempre é saudade. Saudade de tudo que já aconteceu e que pude chamar de emoção. Algumas emoções são falsamente revividas. Digo falsamente, porque cada emoção gera uma sensação única e, como uma impressão digital, não pode ser fielmente repetida por outro que não o seu dono. E o dono da emoção sentida não sou eu, hoje, mas um outro "eu", que não vive em mim agora, e sim, noutro tempo que já se foi. A gente insiste, só pra se enganar porque, afinal, ninguém é de ferro e (talvez) nem para sempre. Não se sente a mesma emoção duas vezes. Será que é por isso que não se ama a mesma pessoa duas vezes? Ah, o amor. O amor também é uma das minhas coisas para sempre. Todas as pessoas as quais amei têm um pouco de mim. Eu as trago na lembrança e, por mais que elas não queiram, me levam com elas também, para sempre. Sei lá, mas acho que estou espalhado pelo mundo. Oh sim, claro... Tenho outra coisa para sempre: o desejo. Esse sim é um perigo. O meu desejo é para sempre, queira meu corpo ou não. Mesmo quando ele vergar à frente, apoiado num tronco de arbusto, brilhante de tão velho, continuarei te desejando, seja você quem for. Então, satisfazer o meu desejo será um problema seu e do meu corpo. A minha alma, que é quem realmente conta, não terá nada a ver com isso. Te desejará para sempre. Que eu me lembre, tem mais alguma coisa que em mim é pra sempre e, pelo visto, não será mesmo a memória... Ah, lembrei: a esperança... A esperança tem que ser mais que para sempre. Por que o "para sempre", sempre acaba rápido demais. Mas, a esperança, não.

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sexta-feira, agosto 27, 2004

Outra lembrança do passado, enquanto o tempo de postar novidades ainda foge de mim, como aquela ex-namorada que reencontrei noutro dia...

Verdades e mentiras

Tem dias em que estamos inspirados e outros não. Hoje estou naqueles dias em que a mente está com preguiça e, por mais que eu tente, até parece um stand de horticultura: cheio de abobrinhas. E olha que é bem difícil eu não estar inventando alguma coisa, aprontando com as palavras, me divertindo, enfim. E como gosto muito de escrever, um dia ainda acabo aprendendo esse ofício, o de falar com letras. Um outro ofício que tenho treinado, já esse, ao longo da vida, é o de conquistar as pessoas. Mas, infelizmente, não fui muito além de um ou outro desavisado ou ingênuo. Na verdade, as pessoas não querem ser conquistadas. Preferem, talvez, ser enganadas, pois um desengano pode ser perfeitamente corrigido, ao passo que, de uma conquista é muito mais difícil a gente se proteger e se livrar. Saint-Exupery, que de saint não tinha nada, sabe muito bem dessa história. Bem, se conquistar com verdades é difícil, conquistar com as nossas verdades é mais ainda. Aquele que não tripudiou com o(a) companheiro(a), nos primeiros momentos da conquista, que tire e atire a primeira peça (de roupa). Todo mundo se mostra o máximo, da melhor maneira possível, só para impressionar o parceiro(a). No reino animal, os machos costumam dançar, estufar peito, pular, cantar, se eriçar, enfim, fazem de tudo um pouco, só pra conquistar a fêmea. Já entre nós, a coisa toda é feita na base da mentira mesmo. E é um tal de "eu sou isso", "eu sou a quilo", "eu tenho mais e maior", "o meu é mais bonito", "eu sou assim, sabe..." Ufa! A mentira é tão insistente, que de tão difundida acaba se tornando uma verdade. E, pior: conquista! Bom, pelo menos por algum tempo, ela conquista. E o que se vê depois é uma grande decepção, quando não, dor, lágrimas, acusações, sofrimento, filhos acidentais... Uma tristeza só. Pobres dos homens, que não sabem cantar, não sabem dançar, não pulam, não estufam a alma, não se pintam coloridos, não se eriçam nunca. Pobres de nós, que precisamos falar para dizer que amamos. Pobres de nós, que precisamos mentir para que sejamos amados...

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terça-feira, agosto 24, 2004

Meus amores,
Como ando mais ocupado do que orelhão quebrado (aquele, que a gente liga sem precisar do cartão), estou reeditando, a partir de hoje, alguns posts do passado, principalmente de quando essa coisa toda começou. Espero que me perdoem a impertinência, mas espero muito mais que gostem. Sempre que postar algo de antes, aviso.

O bar do Jóia

Se algum louco me pedisse pra bancar o repórter e, se eu tivesse que fazer uma reportagem sobre o "Café e Bar Rio Paiva", acho que seria mais ou menos assim:
Paro na porta e espio o cardápio do dia na tabuleta negra, cortesia de uma fábrica de bebidas: "Carne de panela com tutu - R$ 7,00". "Dobradinha à moda - R$ 7,00"; "Filé de peixe com arroz e purê - R$ 7,00"; "Paio na manteiga - R$ 7,00"(...).
Entre algumas possibilidades de pedido, decido entrar e resolver-me, já devidamente acomodado numa das enormes mesas do lugar. Um claro sinal de que alí, a preocupação em encher a casa sacrificando o conforto do freguês simplesmente não existe. Olho de novo a tabuleta e pasmo com o menu do dia seguinte: "Amanhã: Coisas". Simplesmente o máximo. Descubro que a comida, por conta de um negra simpaticíssima, é simples e saborosa, típica de um bom botequim, coisa rara, no Rio de hoje. Será que a negra bonita é a esposa do Jóia? A música não rola, é conduzida: Mozart, Bach, Beethoven, Thelleman, ou os nacionais Villa Lobos, Radamés, Lourenzo Fernandez ou Mignone, são íntimos da casa. Aliás, do sobrado, de arquitetura da virada do século dezenove. Ali as coisas são tão antigas e originais, que até o velho balcão em mármore, apesar de reformado, é absolutamente original. Não há nada velho, apenas antigo. Antigo no tempo, do tempo em que era moderno ser antigo; do tempo do retrato de família na parede, com expressões da juventude antiga. Um cartaz de Coca-Cola "família" (do tempo que ainda havia ambas), estranhamente, convive bem com outros tantos, de filmes nacionais e chamadas diversas; delatam a passagem de gentes das artes por ali. Outras artes também andaram fazendo moçoilas exibidas cujas fotos, digamos, descontraídas, migraram - misteriosa e diretamente - de revistas masculinas para o mural do Jóia. Um outro aviso informa que, em algum tempo, a casa receberá nova pintura. Desde que conheço a casa que o aviso está lá, necessitando ser repintado. "78 anos de vida, 65 de Bar Rio Paiva" - lembra o velho "Jóia" sem muito esforço. Curioso, fico perguntando coisas (distraído, que é pra disfarçar). Talvez fingindo ser enganado, ele vai falando, animado. A expressão de alguma reverência pela minha presença só existe porque sou um ilustre desconhecido. Entre os que chegam, logo aparece um amigo e ele então se solta, travesso. Depressa, divide uma cerveja gelada com o freguês, agora convidado. E se o felizardo for botafoguense, sei não. É bem capaz de ter redução na despesa. De graça, não, "que eu não tenho filho dessa idade", resmunga. Teimoso, pergunto se Jóia é sobrenome ou apelido. - É de nascença - diz. - Aliás, é de antes de nascer, quando minha madrinha jurada, dizia, acariciando o ventre de minha mãe: "Comadre, cuide bem dessa jóia que você traz aí; esse menino ainda vai te dar muito orgulho..." Bem, eu não sei qual o orgulho que o Jóia deu pra mãe, mas dá pra notar que, por aqui, todo mundo morre de orgulho de ser amigo dele.
Aqui e ali, uma ou outra tabuleta, onde se lê: Bar do Jóia, Boteco do Jóia, Jóia's Bar... Parece até que o velho "Rio Paiva" adota um nome para o gosto de cada freguês. Talvez por isso o lugar exiba um singelo diploma concedido por uma suspeitíssima "Confederação Gastronômica Internacional", pelo título de "O melhor boteco do Mundo". Mas eu ainda acho que estão tentando enganar o velho Jóia: O Bar Rio Paiva é, sem dúvida, o melhor botequim de todo o universo...

Café e Bar Rio Paiva - Rua da Conceição esquina com Júlia Lopes de Almeida (por trás do Colégio Pedro II da Av. Mal. Floriano, centro do Rio).

*Thimóteo Rosas foi chefe de manutenção da Biblioteca Pública do Rio, antes de se aposentar com o vigoroso salário de R$ 420,00 e jamais seria dublê de repórter, porque ele não é besta.
Conta-se que certo dia apareceu no Rio Paiva, uma jornalista de um grande jornal e que queria fazer uma reportagem sobre o inusitado bar. A moça e seu fotógrafo, foram gentilmente descartados do local , com o Jóia caladão, sem responder a uma só pergunta da pobre coitada. Um segredo: se o Thimóteo quiser, pode tirar uma ou outra foto, que o Jóia deixa. Mas, só isso.

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sexta-feira, agosto 20, 2004

Minha querida Marcela, que tem muita história pra contar, transcreveu um texto no Maré, onde o Dr. Dráuzio Varela intrevista uma cientista sobre as possibilidades das chamadas células-tronco, uma das mais novas esperanças da medicina, na cura de doenças tão diversas quanto díspares. E o meu meu comentário sobre seu post, à época, acabou ficando tão grande que acabei enviando por e-mail. Ela o devolveu, sugerindo que eu o postasse aqui, no Via Oral, como forma de engrossar a luta pela liberação oficial das pesquisas científicas com células humanas em estágio evolutivo específico, as tais células-tronco. Não vou explicar aqui o que é exatamente isso, porque o texto do Maré esbanja clareza. Vão lá, que vale a pena. Aqui, só um pouco de ironia, contra a estupidez dos que não sabem o que é, não querem saber, mas que de antemão não gostam.

Reina a ignorância em Pindorama...

A igreja, palco de dogmas que aprisionam os tolos, os ingênuos e os crentes manipuláveis, de um lado; políticos, empresários e idiotas em geral, de outro. Todos nos imprensam, a nós, aos necessitados, aos desassistidos e ao resto do mundo, que não sabe ou não quer saber de coisas que não lhe incomodam no momento. Meia-dúzia opinam e a turba os acompanha, mesmo sem saber do que se trata, mas morrendo, se for o caso, na defesa dos que os lideram.

Afirmar que a vida existe a partir da fecundação, é uma meia-verdade que não atende a nenhum preceito filosófico-religioso-antropológico-científico em sua plenitude, por menos abrangente que esse polinômio se apresente. Não se sabe exatamente a partir de que instante existe vida, até mesmo porque isso é um conceito em evolução. O processo mecânico da proliferação humana pode começar num primeiro beijo entre um casal de desconhecidos, se assim se desejar. Mas, até onde ele irá? Até a divisão celular em 64 partes? Seria mesmo a partir daí, que a "alma" se apossa do corpo? Ou é muito depois disso? E se for antes? Quem determina esse momento? Deus? E Ele também determina que a ciência que salva vidas, que traz felicidades, alegrias (seu principal objetivo com a raça humana segundo todas as crenças da terra), somente ocorra sob sua absoluta aprovação, informando aos homens da sua decisão, através de uma sinalizadora estrela cadente?

Sempre tememos o desconhecido. E o que mais tememos, ainda é a capacidade que só o homem tem: a de fazer bobagens com sua inteligência, como aconteceu com o primeiro fogo aceso, a primeira roda, a primeira explosão da pólvora, a primeira bomba nuclear, o primeiro vírus criado em laboratório...

Para combater o medo, só a informação constante, a educação pertinente, elucidativa e não manipuladora. Cada um deve ler e saber o que significa célula-tronco, o que quer dizer paralisia permanente, o que é vida, como começa, onde termina, se é que termina... E cada um que se diz contra, que nos diga então, como se faz para explicar a uma criança que ela não poderá mais correr; ou o melhor jeito de se falar para uma mãe, que ela não mais poderá gerar um filho, depois de perder o seu primogênito em parto; ou ainda, falar para seu marido, para sua esposa, para seu irmão, que, quando lhe tirarem a venda, não haverá mais luz, nem cor, nem um olhar, e também nenhuma esperança, porque, aqueles que poderiam devolver-lhe a visão, foram os primeiros a ficar cegos por interesse, por conveniência, ou por acreditarem que essa é a verdadeira vontade dos deuses, e que assim será, até que uma estrela cadente no céu lhes diga o contrário.

Temos que nos informar e combater a ignorância generalizada, como se fosse essa nossa mais nobre missão. Ou, ao menos por humanidade, por aqueles que, ainda minoria, foram, são e serão fundamentais para o desenvolvimento do próprio homem. E tenho dito.










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sábado, agosto 14, 2004

Ando meio sumido nos últimos tempos, mas tudo por conta de uns cursos de grátis, patrocinados pelo governo Lula e que apregoam métodos de conservação de energia. Como não sou mais nenhum garoto, fui lá conferir, pra ver se tinha um jeito de conservar a minha energia, que, sei lá, pode fazer falta justo naquela hora "h", e essa luz incandescente que ora me alumia, poderá pôr fim a anos de glória entre elas, as belas.

Falando nisso, as belas que me perdoem, mas maquiagem é fundamental. Acho isso hoje, depois do que vi esta semana, num trajeto de ônibus de casa para o curso. Pela hora, viajei no busão lotado, fazendo o arco da ponte Rio-Niterói em pé, ao lado de bela moçoila que não me dava a mínima bola. E foi lá pelas tantas, já no Rio e após a primeira parada, que nasceu um local vago à minha frente, o qual, prontamente e num arroubo de cavalheirismo, ofereci à moça. Maravilhada com o gesto, abriu-me um sorriso muito parecido com aqueles que as mulheres nos dão quando as presenteamos com um anel de brilhantes, sorriso que jamais ganhei, não sei porquê.
Nem deu tempo de me empolgar. Num sinal de enorme agradecimento, ela pegou minha pasta e colocou no colo, sob a sua bolsa já aberta. E dali, daquela cornucópia mágica, eu veria sair uma quantidade infinda de esponjas, pincéis, pozinhos de todas as cores, líquidos, pastas, cremes dourados, prateados, luminescentes, verdes, azuis, rouges... Entendi então, a razão daquele sorriso de diamante. E numa espantosa demonstração de agilidade, controle motor e domínio cênico, a moçoila desenvolveu o mais completo ritual de pintura que a minha taba já viu. Se fosse pintura de guerra, ela venceria ali, sem disparar sequer uma única flexa, a não ser daquele olhar transformado. Sombras, blush, baton, delineador, iluminador, tudo aplicado com maestria e precisão, sob o auxílio de um espelho mínimo e balançante, equilibrado sobre as pernas (e que pernas) nobres, qual marfim. Por último, como uma provocação ao inimigo, o rímel, aplicado perigosamente nos cílios, como que a demonstrar a enorme coragem da guerreira, diante dos solavancos do coletivo, agora no trânsito mais pesado da urbe.

Desci no meu ponto, pensando no quanto nós valemos para tanto sacrifício. Sim, porque aquela maquiagem, como todas outras, era para mim, como é para você que me lê, homem ou mulher, e como é para todos nós, que temos visão de ver e de enxergar, apesar de tão cegos. É a vaidade, o pecado preferido do Diabo, segundo Robert de Niro, em Coração Satânico; é esse pecado semi-capital, que move o mundo e que se mostra no ato da moça do ônibus. Ou na cirurgia da minha vizinha, com cara de 60, mas equipada com peitinhos de 20... Fraude pura! E por falar em fraude, lembrei de uma ótima:

Na prova oral, o professor pergunta ao estudante de direito:
- O que é uma fraude?
- É o que o senhor está fazendo, responde o aluno.
O mestre fica indignado:
- Ora essa, explique-se.
- Segundo o Código Penal, diz o aluno, comete fraude quem se aproveita da ignorância do outro para prejudicá-lo.

Hummmmm... pensando bem, eu poderia pedir indenização por ter sido ludibriado ao longo da vida... Não; afinal, também não fui tão honesto assim em meus elogios... Deixemos como está.

Bem, voltemos ao que interessa: ninguém quer não ser bonito (e nem eu) e, para isso, parece que vale de tudo.

- Acabei de me pintar e não vi minha sombra - disse a moça à amiga.
- É assim, acontece do dia pra noite: acordei e notei meus olhos caídos! - disse a outra. E lá foram as duas andando, conversando alegremente, marcar a cirurgia plástica.

Sei não; ando em dúvida se faço uma lipo na barriga, ou se troco de carro. Com a lipo, fico a pé. Com carro novo, fico assim, com cara de peito caído... Dúvida mais que cruel. Afinal, o que diria o de Niro?



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sábado, agosto 07, 2004

E vejam só vocês, se há algo que a gente não faz por amor: o safado do Pato resolveu postar um comentário brincalhão que eu fiz lá no Batatada, e eu, gratíssimo pela deferência, devolvi, com o envio da história completa, que passou a existir a partir do tal comentário. num exemplo clássico do ovo que surge antes da galinha. Com algumas pequenas alterações, esse é mais-ou-menos o que penso(?) da origem da nossa raça...



A verdadeira origem da civilização Humana


Cerca de 3 milhões de anos separam-nos de nossos primeiros ancestrais, hominídeos gerados a partir de uma irresponsável experiência intergaláctica entre símios da espécie catarríneos, e alguns membros de uma decadente civilização, os merdianos, um povinho que se desenvolveu num planeta de 5ª categoria, chamado Merd, astro fétido e gasoso e que órbita a segunda estrela do cinturão de Orion,

estranhamente denominada de Prepúcis.


A constelação de Orion (ou Orionte) é apenas visível no Inverno, pois a partir de Abril desaparece a Oeste, mas é muito facilmente identificável. Diz a mitologia Merd, que Orion, o Grande Caçador, se vangloriava de poder matar qualquer animal (vê-se aí, a origem do comportamento destrutivo de um merd). O terrível combate que travou com o Escorpião levou os deuses a separá-los. A constelação de Escorpião encontra-se realmente na região oposta da esfera celeste, daí nunca se conseguirem encontrar estas duas constelações ao mesmo tempo acima do horizonte.
A constelação de Orion parece, assim, um homem, sendo as estrelas Saiph e Rigel os pés. Ao meio aparecem 3 estrelas em linha reta, que se reconhecem imediatamente, dispostas oblíquamente em relação ao horizonte. Este trio forma o Cinturão de Orion, do qual pende uma espada, constituída por outras 3 estrelas, dispostas na vertical.
Prolongando uma linha imaginária que passe pela estrela central do Cinturão de Orion, passando pelas 3 estrelas da «cabeça», vamos encontrar a Estrela Polar.

Em Merd, o mar e a terra não foram devidamente separados por Deus no 3º dia de sua criação, como ocorreu na Terra; essa é a razão pela qual aquilo lá parece mais uma grande cloaca diarréica: tem mais lama que pé de favela depois da chuva. O primeiro merd, criado a partir da lama, e que recebeu o sopro divino, chamou-se ¿Merdão¿. Desconfia-se que venha daí a crença católica no relato histórico do nosso primeiro homem, o ¿Adão¿.

A Grande saga de merds, como ficou conhecida a aventura expansionista merdiana, consistia na exploração de inúmeras galáxias ao longo de algumas dezenas de anos (um ano merdiano equivale a um mandato político completo, ou seja, cerca de quatro anos terrestres), tempo suficiente para a coleta de dados científicos, de amostra de minerais e para a captura alguns espécimes animais. Foi aí que se deram os primeiros contatos com descendentes dos catarríneos, e que resultaria no que se tem hoje de mais próximo de um merd original.

Segundo pesquisas mais recentes, com datação através de C-14, a comitiva de exploração teria sofrido muitas pressões por parte dos partidos políticos locais, desejosos de enviar seus protegidos, gente que nada tinham a ver com ciência. Restos de cigarro, resíduos de bebidas consideradas alucinógenas e algumas membranas perfuradas, muito semelhantes a preservativos, estão sendo exaustivamente estudados pela ciência, com o objetivo de se chegar ao tal elo perdido da humanidade. De qualquer forma, os estudos já podem afirmar, baseados em hábitos que perduram até hoje entre nós, que desde aquela época: apesar das dificuldades econômicas e do panorama recessivo mundial, a cada quatro anos, renova-se a nossa capacidade de fazer mais merds.

O que se sabe de concreto até o momento, é que, ao que tudo indica, nós somos realmente originários do planeta escuro, fétido e fumegante, da constelação de Orion. Nossos ancestrais, merdianos filhinhos-de-papai, introduzidos na comitiva, vieram mesmo pra cá há milhões de anos, e ao redor de grandes e animadas fogueiras, cultivaram fêmeas símias catarríneas, que adoraram mesmo essa história de ¿Homo erectus¿ e não queriam outra vida. Deu no que deu.

Quando viram que tinham feito muitos merds, todos eles se mandaram, porque, afinal de contas, filho feio não tem pai. E nós como carregamos gens de merds, apenas repetimos o que nossos ancestrais faziam no planeta deles (que, aliás, transformou-se num grande fossão) e continuamos a fazer cada vez mais merds, principalmente entre as populações de menor renda, que depois de produzi-los em grande número, espalham merds pela cidade toda.

Somente no século dezenove surgiria uma luz na busca da ancestralidade humana, com a teoria de Darwin. Charles Darwin manteve A Origem das Espécies na gaveta por 20 anos. Temia chocar a mentalidade religiosa de seus contemporâneos: a teoria da evolução demonstrava, afinal, que o homem é apenas um animal entre outros e, como todos os outros, evoluiu a partir de formas simples, através da seleção natural. O que ele não teve coragem de dizer foi que, a forma da qual o homem evoluiu, além de simples, era nojenta, muito nojenta.

Perseguido pela Igreja e pelo meio científico em geral, Darwin se isolou nas ilhas Galápagos, depois que seus estudos, para ele incontestáveis, deram conta de que o futuro da humanidade nada mais seria que uma enorme concentração de merds.
Darwin ainda conseguiria determinar duas grandes vertentes da evolução humana, quando, segundo sua teoria, parte dos merds fixou-se na África setentrional, e outro grupo dirigiu-se à parte mais ao norte da Europa. O cruzamento de merds com alguns espécimes de ursos polares daria origem aos povos nórdicos, de hábitos menos grotescos, merds louros, de olhos azuis, como Miguel Falabella, que no fundo, é um merd como outro qualquer, só que muito mais megalômano.
Estudos mais recentes mostram, no entanto, que merds fêmeas, nórdicas, apesar de aparência mais ao gosto de norte-americanos e de grupos musicais de axé, têm raciocínio mais lento, apresentam grande dificuldade de aprendizado, como, por exemplo, o envio de um fax (elas sempre põem um selo na mensagem), o uso de telefone celular, ou atividades que requeiram raciocínio rápido, como lavar roupas, varrer casa, tomar o elevador, etc. Descobriu-se que as louras têm apenas a metade dos neurônios de uma pessoa normal. Os cientistas perceberam a tempo que as louras examinadas estavam grávidas, razão da duplicidade na contagem de neurônios.


Hitler e os merd

Foi Hitler, um dos mais ferrenhos admiradores da teoria darwiniana, quem deu início à tentativa de melhoria da raça ariana. Não se sabe ao certo o porquê da escolha inicial dos judeus, no processo de limpeza étnica alemão. Mas, segundo David Cassidy, seu principal biógrafo, a causa maior teria sido a marcante presença de uma babá judia, Sarah Szterenfeld, que na infância do ditador alemão o obrigara a comer sempre uma receita de peixe doce, que além de horrível, ele não conseguia pronunciar o nome direito, o que lhe valia como castigo, uma porção extra da iguaria. Assim, sem saber, a babá selaria o destino de cerca seis milhões de judeus, que, aos olhos de Hitler, poderiam torna-se cozinheiros pelo mundo afora. Uma outra história que agrada aos teóricos, diz que Hitler teria sido profundamente influenciado por um diálogo ocorrido em casa de um amiguinho de escola, condição determinante para sua total aversão aos judeus, que, a seu ver, eram os merds mais característicos, a mais pura essência de merd. Fala-se no seguinte diálogo:

"seu" Yossef o pai de Jacozinho, amiguinho psicopata de Hitler, vira-se para o filho mais velho e pergunta:
- Já fez Sami?
- Sim, papai!
- E você, Jacó, já fez?
- Sim, papai!
- Sarah?
- Já fiz, papai!
- Raquel?
- Também já fiz!
- Ok! Então pode dar a descarga!

Diante do trauma nascido dessa cena, Hitler criaria a célebre frase, repetida à exaustão: "merd bom, é merd morto". Outra frase atribuída ao ditador é a de que "merd morto não fede". Sobre esta, porém, existem controvérsias.

Também os filósofos tentaram entender o comportamento dos merds alemães. Edmond Husserl (1859-1938), depois de anos de estudos frofundos da natureza merdiana, finalizou afirmando que "um merd, nada mais é que um merd, sem tirar nem por". Ao contrário, Sartre(1905-1980) diria: mgfhggmmmmfmgggffmguuummm, expressão até hoje ainda não traduzida, surgida por ocasião da invasão da França pelas tropas alemãs, quando o famoso filósofo francês foi amordaçado pelo sargento Shultz. Desconfia-se que ele estivesse dizendo "quesquecé cette merde , pô?".

Concluindo, podemos afirmar que a união entre merds e catarríneos, resultou na única espécie do planeta Terra com capacidade e talento para destruir seu próprio habitat, consumir seus recursos até a exaustão, comer (de várias formas) membros de outras espécies e, ainda por cima, promover eleições de quatro em quatro anos. Não é de admirar que vivamos todos querendo nos matar mutuamente, e, a julgar pelas nossas escolhas de vida, de comida e de governantes, isso não está mesmo muito longe de acontecer. Ainda bem.







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quinta-feira, agosto 05, 2004

Recebi um e-mail, cujo conteúdo reproduzo abaixo, e nem sei se o danado é tão atual assim. Não tenho dúvidas de sua veracidade, até mesmo porque lido com amigos professores que me apresentam questões idênticas. São situações engraçadas, mas que denotam a dura realidade de nosso ensino, situação que atinge os vários níveis de formação do indivíduo; é a tragicomédia do ensino. E aí vem um monte de gente fazendo greve, protestos e destilações ácidas, tudo contra o exame do ENEM. A estes, cabe mostrar o resultado da nossa má formação escolar, patente, clamorosa e clara, nas respostas às perguntas formuladas no dito teste.
Aproveitando o gancho, um certo jornal de TV tem divulgado estatísticas eleitorais, levando em conta a posição de cada candidato diante do grau de instrução do eleitor. Como os melhores candidatos só têm maior votação entre os mais instruídos, fica absolutamente clara a razão do desinteresse generalizado das autoridades, em promover investimentos sérios no ensino do país.


BRAZIL AMEO OU DEICHE-O.........................


Relação atualizada das pérolas do ENEM - Exame Nacional do Ensino Médio.

Entre parênteses os comentários dos professores.

"O sero mano tem uma missão..." (A minha, por exemplo, é ter que ler isso!)

"O Euninho já provocou secas e enchentes calamitosas..."( Levei uns
minutos para identificar El Niño...)

"O problema ainda é maior se tratando da camada Diozanio!" (Eu não sabia que a camada tinha esse nome bonito)

"Enquanto isso os Zoutros...tudo baixo niveu..."(Seja sempre você mesmo!)

"A situação tende a piorar: o madeireiros da Amazônia destroem a Mata Atlântica da região." (E, além de tudo, viajam pra caramba, hein?)

"O que é de interesse coletivo de todos nem sempre interessa a ninguém individualmente." (Entendeu?)

"Não preserva apenas o meio ambiente e sim todo ele."(Faz sentido)

"O grande problemas do Rio Amazonas é a pesca dos peixes."(Achei que fosse a pesca dos pássaros.)

"É um problema de muita gravidez."(Com certeza...se seu pai usasse camisinha, não leríamos isso!)

"A AIDS é transmitida pelo mosquito AIDES EGIPSIO."(Sem comentário)

"Já esta muito de difícil de achar os pandas na Amazônia." (Que pena. Também ursos e elefantes sumiram de lá.)

"A natureza brasileira tem 500 anos e já esta quase se acabando." (Foi trazida nas caravelas, certo?)

"O cerumano no mesmo tempo que constroi, também destrói, pois nós temos que nos unir para realizarmos parcerias juntos." (Não conte comigo)

"Na verdade, nem todo desmatamento é tão ruim. Por exemplo, o Aeds Egipte seria um bom beneficácio para o Brasil." (Vamos trocar as fumaças)

"Vamos mostrar que somos semelhantemente iguais uns aos outros" (Com
algumas diferenças básicas!!)

"...menos desmatamentos, mais florestas arborizadas." (Concordo! De
florestas não arborizadas, basta o Saara!)

"...provocando assim o desolamento de grandes expécies raras." (Vocês sabiam que os animais também têm depressão?)

"Nesta terra ensiplantando tudo dá." (Isto deve ser o português arcaico que Caminha escrevia...)

"Isso tudo é devido ao raios ultra-violentos que recebemos todo dia." (Meu Deus...Haja pára-ráio!)

"Tudo isso colaborou com a estinção do micro-leão dourado." (Quem teria sido o fabricante? Compac? Apple? IBM?)

"Imaginem a bandeira do Brasil. O azul representa o céu, o verde
representa as matas, e o amarelo o ouro. O ouro já foi roubado e as
matas estão quase se info. No dia em que roubarem o céu, ficaremos sem bandeira." (Ainda bem que temos aquela faixinha onde está escrito "Ordem e Progresso".)

?Ultimamente não se fala em outro assunto anonser sobre as araras azuis que ficam sob voando as matas." (Talvez por terem complexo de urubus!)

"...são formados pelas bacias esferográficas." (Imaginem as bacias da BIC. Eu "disconcordo"!)

"Precisa-se começar uma reciclagem mental dos humanos, fazer uma
verdadeira lavagem celebral em relação ao desmatamento, poluição e depredaçao de si próprio." Concordo: depredação de si mesmo!)

"Eu concordo em gênero e número igual."

"O seringueiro tira borracha das árvores, mas nunca derrubam as
seringas." (Estas podem ser derrubadas porque são descartáveis.)

"A concentização é um fato esperansoso para todo território mundial." (Haja coração!)

"Vamos deixar de sermos egoistas e pensarmos um pouco mais em nos mesmos." (Que maravilha!)

Pois é. Com a palavra, os contrários às provas do ENEM, que, se não é a melhor altenativa, ao menos nos faz rir da nossa disgrassa...


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sexta-feira, julho 30, 2004

Depois das horas

Só.

Fechou a porta e entrou, arrastando os pés cansados no chinelo gasto. São velhos, todos: a casa de um só cômodo, o chinelo e ele. Principalmente ele, que é quem importa. Lá fora, algumas risadas modernas, de um tipo que ele nunca ousou experimentar na juventude. As pessoas não sorriem passados nem futuros. Só presentes incertos. Talvez por isso, a estridência das risadas nervosas, barulhentas e desconfiadas. Risadas que suspeitam da própria alegria...
Lá dentro, o velho debulha um pacote de jantares. Macarrão com coisas, garrafas de sonhos, revistas de prazeres. Armas contra a solidão que espreita as noites. Um rádio barítono recita mazelas musicadas para uma tv miúda, que cospe imagens em p&b. São as companhias do homem, armas. E a as risadas lá fora, riem, desgraçadamente.
A noite cresce, abafa uns sons, amplifica outros. E o homem viaja só, em lembranças, fica atento. Vislumbra todo o seu mundo, que cabe na única janela do cômodo. A lua alta, agora nada mais é, que lua, sem serventia. Nem iluminar direito ela sabe mais, desde que, há muito, postes espetam a rua. Às lembranças também não serve, nem mais à poesia, como nos tempos novos do velho.
Em algum lugar, por ali, alguém goza. Ele ri. Que tanta sem-vergonhice desse povo, tão diferente das minhas, aquelas sim, safadezas das boas, melhores porque eram às escondidas, desobediências quase criminosas, e por isso mesmo de gozo maior, muito maior.
Agora não.
Goza-se até na rua, de dia, na frente de qualquer um. E aí não tem prazer, e o cabra tem que fazer besteiras outras, que é roubar, matar, estuprar e tudo que seja o caso de ser errado, porque não tem jeito mesmo não: o errado, no fundo é o que faz aumentar o gozo - filosofa.
Enquanto tudo, a noite late, cada vez mais perto.
O rádio murmura um evangelho para a tv, que chia cinza. Já é depois de horas, essa hora. Até a tv já morreu, e o velho nem se dá conta. Embebido em sonhos e tecendo as próprias nuvens de cigarro barato, pensa saudades, criando vidas, que é pra não dormir sozinho, porque o sono já está ali, esperando.
Solidão.
Daqui a pouco a janela se fechará. A tv, já morta, será extinta.
Como sempre, só o rádio acordado, tocando o passado, atiçando a memória alcoolizada.
E a solidão ali, em pé, frente à porta, apenas olha, esperando o homem acordar, como sempre faz, todo o tempo.

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quarta-feira, julho 28, 2004

Mané "Fala barata"

De todos os personagens da minha infância, um dos que mais me impressionou foi um tal de Manoel, português baixinho e roliço, cuja pitoresca, bucólica e quixotesca profissão de caixeiro-viajante, o conduzia por todo o sertão de Pernambuco e adjacências. Para os que não conhecem, um caixeiro-viajante nada mais é que um vendedor que percorre centenas de quilômetros pelas estradas interioranas, munido de um catálogo de produtos e um talonário de pedidos. Normalmente, representavam uma ou mais lojas de departamentos, produtores de cereais e grandes atacadistas. Feito o pedido, um caminhão da empresa repetia o percurso do vendedor, entregando as mercadorias aos comerciantes locais. Ainda hoje existe a profissão, atendendo, por exemplo, às pequenas cidades mineiras, paulistanas e fronteiriças, onde as vendas e mercearias fazem o comércio local. Pois bem: Manoel português era um desses vendedores. Vendia desde tecidos e panelas, a bebidas e velas, quando não um "fígado alemão" (espécie de charque de fígado bovino), em sua seção de secos & molhados. Não sei ao certo o ano, mas seu reinado durou grande parte da década de 50. Como a profissão de vendedor pressupõe o dom de bem palavrear, Manoel falava não só pelos cotovelos, mas também por todas as juntas do corpo. E segundo se conta, os assuntos eram tão sem propósito e tão variados que a "encheção de lingüiça" lhe rendeu o apelido de "Mané Fala Barata", ou seja, o que ele falava era assunto tolo, de pouca valia, era conversa fiada, barata e que, com o tempo, o tornaria talvez a figura mais folclórica do meio.
Vai daí que, como todo baixinho, Mané era folgado, condição básica pro sujeito meter-se em confusões insolúveis. E foi o que aconteceu numa das costumeiras paradas de viagem, no interior da Bahia. Chegou esbaforido numa bodega de beira de estrada, tonto de fome. A dona do estabelecimento, que já o conhecia, cumprimentou:
- Ô, "seu" Mané, como vai? Viajando muito, deve estar com fome...
- Pois é dona Zéfa, caindo de fome e sede...  - responde o homem.
- Apois, hoje tem uma sopinha de carne com legume, que tá uma beleza... Vai um prato fundo?
E responde Mané, alto em bom tom:
- Deus que me livre, dona Zefa... E eu lá sou porco pra tomar lavagem? Eu quero é comida de gente... E lá foi Mané, se ajeitar numa mesa de canto, enquanto um sujeito enorme, enchapelado, sorvia sonoramente um pratão da sopa de dona Zéfa. Sem levantar cabeça, instruiu, em voz grave:
- Ô dona Zéfa, pode de colocar um pratim dessa sopa aí pro moço, que ele hoje vai comer comida de porco sim... A mesma comida que o "porco" aqui está comendo...
E Mané tomou a sopa, em silêncio absoluto, como quem comunga uma hóstia em primeira comunhão...



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Totó Ramalho

Algumas histórias verdadeiras são tão extraordinariamente anômalas, que mais se parecem com mentiras. É, sem dúvida, o caso dessa. Mas, como vocês já me conhecem e sabem bem quando relato uma fantasia e quando falo de realidades, tenho, aqui, uma enorme chance de não ser desacreditado. Muitos já sabem que minha família tem origem nordestina. Meus pais se conheceram numa festa na casa de Antônio Ramalho no bairro pernambucano de Cordeiro, onde meu pai entrou como "convidado" de um amigo. Antônio Ramalho era alfaiate em Recife, e afamado, fez muita roupa para famosos locais, entre eles o então governador Miguel Arraes, antes que o golpe de 64 o destronasse do Palácio das Princesas. Totó Ramalho, como era mais conhecido, era uma pessoa inacreditavelmente boa. Pai de oito filhos, acolheu minha mãe, sua prima em primeiro grau, e fez dela uma costureira profissional ensinando-lhe o ofício de "calceira", na conhecida "Alfaiataria Ramalho". Isso, lá pelos idos de 1950, era um feito para a independência feminina, principalmente numa cidade nordestina. Mas, voltemos ao Totó. Festeiro como poucos, os bailes antológicos na casa do Cordeiro marcaram época. Entre os da família, até hoje se comenta sobre uma ou outra noitada, onde alguém conheceu outro alguém e acabaram se casando, como ocorreu com os meus pais. Mas, se por um lado a alegria e a competência conquistavam admiração de muitos, outros tantos cultivam-lhe ódio mortal. E não era outro o motivo, senão sua sinceridade exacerbada e que o conduzia a comentários imprudentes, inconvenientes e de inteira, absoluta e absurda indiscrição. Papas na língua, jamais. Nada o detinha, nada o impedia de opinar, sobre o que quer que o incomodasse, onde quer que estivesse, fosse com quem, ou de quem fosse. E foi assim que, numa viagem com meu pai à Vitória de Santo Antão, cidade famosa da zona da mata pernambucana, Totó chegou ao ápice da sua capacidade de proferir impropérios e inadevidos comentários, soltando a grande campeã de todas as suas indiscrições. Lá pelos anos de 1966/67, como era o único representante pernambucano de um grande fabricante paulistano de tecidos, "seu" José Laurindo, meu pai, tinha a incumbência de visitar os clientes das principais praças do estado. Numa de suas idas à Vitória de Santo Antão, levou Totó Ramalho como acompanhante, sempre recomendando ao velho amigo que se mantivesse discreto, preferencialmente calado, já que tão bem o conhecia. A visita da vez era a um respeitado lojista local, grande comprador e com planos expansionistas para a região. Encontro correndo solto, movido alguns goles de cachaça de qualidade, carne-sol e outros petiscos deliciosos presentes na casa de qualquer bom nordestino, quando o anfitrião resolve mostrar a intimidade de sua casa, já que houvera concluído uma ampla reforma, tornando sua moradia bastante atraente e confortável. Percorreu-se todo o lugar, com meu pai tecendo sinceros elogios à obra, que transformara um velho casarão numa habitação moderna e agradável, panorama ao qual Totó acompanhava em suspeito silêncio, transportando seu corpanzil com as mãos às costas, como um duro fiscal de órgão público. Lá pelas tantas, respirou fundo, fez cara de pouco gosto e soltou: - É, meu amigo... tá tudo muito bem, mas eu vou lhe dizer uma coisa: Essa sua casa, na frente da casa de Zé Laurindo, é uma boa merda... Voltou pra casa debaixo de todo tipo de xingamento que meu velho pai foi capaz de lembrar.

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terça-feira, julho 20, 2004

O ponto mais cardeal da minha vida

   Cada um tem uma direção, um sentido na sua vida um lugar pra onde apontar sua nau. Muita gente até hoje procura seu norte, seu rumo, o caminho definitivo. Eu procuro o meio, porque o caminho eu já sei: o nordeste, rumo que minha vida tomou desde cedo, pois em minha aurora, o sol nasceu nas praias pernambucanas, nas enchentes do Capibaribe, no leito seco de rios que experimentaram as terras do sertão um dia. É lá que está cimentada a pedra fundamental de cada uma das construções do que eu sou, dos meus sonhos aos meus medos; dos meus desejos, às grandes conquistas que hei de ter ainda. Vêm de lá, os cheiros do meu tempero, a cor dos meus quadros, as notas da minha música, as idéias maiores dos meus projetos. As soluções pra vida a gente traz da infância, só dela, e de nenhum outro lugar. E quando a gente cresce, é so pra melhorar o que já sabe. Continuo um infantil nordestino, parte de um povo que parece ter nascido pra ganhar o mundo, sem perder o seu caminho, sonhando que um dia, aquela terra vai florir na primeira chuva, que a flor vai crescer na segunda e, se chover de novo, ele volta pra casa de vez.
   Foi em 1971, quando retornei com a família para a São Paulo natal, que pude perceber melhor aquele povo que deixara, os amigos, as lembranças. Aos 15 anos, num ginásio frio da zona sul da cidade, entendi como se vê um nordestino nesse país. Me senti como se sente a maioria dos emigrantes, sob olhares e ações dos que se julgam superiores. Fui negro, fui indio, fui pobre, fui feio, subdesenvolvido, ignorante e estúpido, tudo de uma vez só, e para todos os que conheci na sala de aula, até mesmo para professores, acostumados aos olhos azuis das cabeças louras, aos nomes sonoros, escritos com k, y, w, de pronúncia complicada e que lá no nordeste a gente dava logo um jeito de sincopar, por que lá tudo era mais simples, a começar pelo povo. A professora de português quis me expulsar de sala. A de matemática, lembrou-me meu devido lugar, quando clamei por alguma justiça, nem lembro mais qual; a de história, só me deu atenção quando dela discordei, sobre questões de Idade Média e da decadência americana, que ela insistia em afirmar. Bombardeado de todo lado, sentindo na alma a intolerância das gentes com gente do meu próprio país, desdobrei-me ao avesso, só para mostrar a todos que eu, aquele "paraíba", com cara de filhote de "cruz-credo", era tão bom quanto eles, descendentes diretos de italianos, ingleses, espanhóis, portugueses, japoneses, libaneses, alemães... E eu, descendente mais-que-direto de um sertanejo, que pegou na enxada aos sete anos (e parou de estudar na 5ª série, por não poder comprar um par de óculos), não queria ganhar de ninguém; empatar já estaria de bom tamanho.
   E lá fui eu: rezei Ave Maria em francês, "entortei" todos na quadra de futebol-de-salão (eram descendentes de estrangeiros, lembram?), dissertei sobre "A noite dos mil anos" na aula de história, criei incríveis trapizongas para a feira de ciências e, na conquista da professora de português, sangrei e lacrimejei na escrita, até que, por fim, consegui emocioná-la. Em inglês fui sofrível - imagina um inglês com sotaque pau-de-arara... Mas ao fim, conquistei o sul do país; ao menos aquela pequena parte do sul do país, que ia da portaria controlada da escola até a sala de aulas. Implicâncias iniciais se converteram em admiração e respeito; e os não amigos, ora, esses, eram inimigos de si mesmos e deles nada sei. Sei apenas que até hoje, sempre que vou a São Paulo, visito alguns, que me conquistaram tanto quanto eu a eles. Vitória, afinal, da vida. Mas, da minha vida apenas; nunca jamais a de milhares e milhares de retirantes, que perderam sua história, sua alegria, sua dignidade, sua pátria. E é aqui que paro minha história, para entrar em outra, que fecha essa. Mas isso fica pro próximo número.

Fotografia de uma família típica nordestina (http://www.araujo.eti.br)
 





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quarta-feira, julho 14, 2004

O retorno de Hamellin

Diz-se que, numa certa tarde, fim de dia, surgiu na cidade, não se sabe bem vindo de onde, um velho bibliotecário que, com cara de louco, exibia velhas partituras, dizendo terem pertencido ao flautista de Hamellin. Andava pela urbe inteira e, sempre que parava, numa calçada ou praça mais movimentadas, puxava de um saquinho plástico, desses de supermercado, uns rolinhos de papel amarelado, de onde pulavam claves, mínimas, semínimas e colcheias, que ele solfejava com algum vigor, para uma platéia espantada. Música estranha, a alguns incomodava tanto, que estes não a suportavam e corriam, fugindo como se fossem pois, diabos, e a canção, a cruz. A outros não fazia efeito; e ficavam estes ali, contemplando aquele velho engraçado que cantava e dançava ao som da própria voz, como uma chama que se contorce em fulgor, à dor do combustível consumido.

"Vade, vade mal, que nossa dor fomenta;
Corre as ruas da cidade, perseguido pela turba...
Voltemos à paz sob tua grata ausência
Esconde-te à toca, deixa em paz nossa terra...
Rogues a Deus para que em nós nasça a clemência..."

Musica estranha, sob versos tão esquisitos, e acompanhada apenas pelo soprar de uma velha e suja flauta de bambu, num estribilho que, aos poucos, ia se fazendo ouvir, mais e mais, cantada pelas pessoas, que paravam de falar umas com as outras, esqueciam seus assuntos, só pra cantar...

"...Vade, vade mal, que a nossa dor fomenta..."

E conta-se que, em noites seguintes, a cidade toda cantou e não dormiu, feliz e esperançosa. E os que não cantaram, também não dormiram, rolando na cama de um lado a outro, incomodados com a peculiar melodia. E dias se sucederam. E as cidades por onde o velho passava se inflamavam em cantorias, a pregar uma nova era, sem fome e feliz, num sonho sonhado por todos e cantado à luz da lua, uivado até. E que continuava a incomodar - e muito - àqueles todos que não dormiam, mas que também não cantavam, mas sofriam pela sonora flauta do bibliotecário e pela intrigante composição de Hamellin. "Mas não era para espantar ratos?" - perguntava um; "Acho que era para dar fim aos ladrões...", dizia outro; "Não, apenas para deter os corruptos" - berrava um terceiro, enquanto todos se entreolhavam, com certo ar de acusação.

E nasceu, finalmente, o dia em que todos os insones não cantantes se reuniram, sonolentos e cansados, clamando direitos ao sono dos justos (segundo seu próprio senso), tramando o fim do velho bibliotecário e o conseqüente silenciar de sua perigosa cantiga. E eram tantos os insones não cantantes, e tão parecidos entre si e entre todos, que, em uníssono e gritando "bravo", "oba", "muito bem", "isso aí", selaram de apoios à proposta de simplesmente adquirir, por compra, as partituras de Hamellin, ao valor que fossem, até o limite de todo o dinheiro que tivessem. Fariam mais, se fosse o caso, mas comprariam seu descanso, sua paz na terra.
E foram todos oferecer o milhão, ao que ouviram um grosso "não"; disseram "que tal um bilhão?"; e a flauta tocou "nem pensar". Chegou-se à casa do trilhão, do quatrilhão, do centilhão... E o homem, nada...

"Mas o que diabos ele quer", um insone indagou. "Vamos lá saber" - disse alguém, sob o aplauso de todos.

- Senhor, digo..., Excelência... Vossa Suntuosidade, se nos permite a audácia, Majestade, gostaríamos de saber, de Vossa Reverendíssima Sapiência, o que nos é possível oferecer à Sua Magnânima Pessoa, no intuito interromper-se, ainda que provisoriamente, digamos, por uns 30 anos, a maviosa sonoridade à qual se expõe em delírio esse povo ingrato, que para nós nem mais dirige olhar?

Ao que respondeu o homem, num sorriso:

- Alcem-me ao poder... Deixem-me conduzi-los a todos, ao som fluídico e inebriante desta flauta; com esse notável talento para bajulação que a mim demonstram, EU os colocarei nas alturas, onde jamais imaginaram que poderiam estar, livres de qualquer infortúnio, e para o resto de suas vidas...

- M-Mas... Meritíssimo, Vossa Majestade Reverendíssima não entendeu... Nós não agüentamos mais essa melodia terrível... nosso desejo maior é o de quebrar essa flauta, rasgar as partituras, incinerar tudo e, se possível, prender e arrebentar os que insistirem em cantá-la... Assim não dá, assim não é possível...
- Não se preocupem com a música - disse o líder. "Aqui está..."
E puxando um punhado de tapa-ouvidos do bolso, todos em cor carmim, pôs-se a distribuí-los entre os insones presentes, desejando que todos tivessem uma reparadora noite de sono, enquanto pensavam na proposta feita.
Oh, Vossa Magnanimidade, que maravilha não ter que escutar tão maledicente canção... Mas, o que significam estas letras aqui escritas, "P" e "T"...?
- Paz e Tranqüilidade. Não é isso que procuras?

E assim foi feito. Com o apoio dos não cantantes, o bibliotecário foi eleito por margem esmagadora de votos, logo no 1º turno. A população, em júbilo, cantou dias, semanas, meses a fio. No palácio, todos usam tapa-ouvidos, apesar de quase nunca se escutar a velha música. E até hoje, ninguém jamais descobriu por quê, os que os governam, jamais escutam seus pedidos...

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terça-feira, julho 13, 2004

Mudanças

Este blog está em teste. Ele existe em www.viaoral.blogger.com.br e aos poucos será re-direcionado.

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segunda-feira, julho 12, 2004

Crise? Que crise???

A crise financeira nacional, parece que só nos atinge a nós, contribuintes. Mas crise resolve-se com trabalho, como nos mostram nossos governantes, que põem a família pra batalhar, ajudando assim na despesa da casa. Vejam só que belo exemplo...

Maria Rita Garcia Cônjuge: José Dirceu, ministro-chefe da Casa Civil
Profissão: socióloga
Cargo: assessora da presidência da Escola Nacional de
Administração Pública
Nomeação: março de 2003
Salário: R$17.000,00

Sonia Lourdes Rodrigues Berzoini Cônjuge: Ricardo Berzoini, ministro da Previdência
Profissão: bancária aposentada
Cargo: assessora no gabinete do deputado Paulo Bernardo (PT-PR)
Nomeação: maio de 2003
Salário: R$ 19500,00

Margareth Rose Silva Palocci Cônjuge: Antonio Palocci, ministro da Fazenda
Profissão: médica sanitarista
Cargo: assessora da presidência da Fundação Nacional de Saúde
Nomeação: fevereiro de 2003
Salário: R$14.850,00
E EU, sem trabalho desde fevereiro deste ano, vou votar bonitinho, nas próximas eleições... Ah, vou....


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